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Roda de Samba - 09/2005 - Nelson Cavaquinho

Filho de família pobre, Nelson Antônio da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1911. Teve que deixar a escola no terceiro ano primário para trabalhar.

A música nasceu cedo em Nelson. Seu pai, Brás Antônio da Silva, tocava tuba na Polícia Militar. Nas tardes de domingo a família se reunia, seu tio tocando violino e Nelson tentando acompanhá-lo num instrumento feito em casa: uma caixa de charutos com alguns arames esticados. Seu contato com a malandragem carioca começou cedo. Ficaria amigo de famosos e famigerados valentes como Brancura, Edgar e Camisa Preta. Ficava fascinado com a perícia dos grandes mestres do cavaquinho e ia espiando e aprendendo os truques do instrumento. Nessa época adquiriu um costume que virou sua marca: tocar apenas com dois dedos.

Demonstrando uma habilidade natural para o instrumento, Nelson compôs um choro, “Queda”, que o fez tornar-se respeitado como músico. Aos 20 anos, conheceu Alice Ferreira Neves. Teria quatro filhos. Seu pai conseguiu um posto como cavalariano na Polícia Militar. Nelson mergulhava cada vez mais no samba e na boêmia, passava dias longe de casa, faltava ao trabalho e era punido com detenção. “Eu ia tantas vezes em cana que já estava até me acostumando ao xadrez. Era tranqüilo, ficava lá compondo, entre as músicas que fiz no xadrez está “Entre a Cruz e a Espada”.

Em 1943, Nelson Cavaquinho teria sua primeira música gravada: Alcides Gerardi, então um cantor iniciante, lançava, “Não Faça Vontade a Ela”, num 78 rotações. No mesmo ano, Ciro Monteiro gravaria “Apresenta-me Aquela Mulher” e “Não Te Dói a Consciência”, em 1945, “Aquele Bilhetinho” e, no ano seguinte, “Rugas”, o primeiro sucesso de Nelson como compositor. No final da década de 40, Roberto Silva lançava o samba “Notícia”.

Na década de 50, trocou o cavaquinho pelo violão. Mas não deixou a maneira de tocar com o polegar e o indicador que sempre impressionou instrumentistas como Paulinho da Viola, Turíbio Santos e Egberto Gismonti.

A fama só veio na década de 60. Em 1965, a musa da bossa nova, Nara Leão, lançava um disco com composições de vários sambistas, entre eles Nelson Cavaquinho. E na década de 70 suas músicas seriam gravadas por intérpretes de sucesso. Paulinho da Viola lançava “Duas Horas da Manhã”, e Chico Buarque, “Cuidado Com a Outra”. Clara Nunes gravaria “Minha Festa”, “Tenha Paciência”, “O Bem e o Mal” e “Palhaço”. Esta última composição já havia sido gravada por Dalva de Oliveira, em 1953. Uma de suas primeiras composições, o choro “Nair”, seria gravado por Altamiro Carrilho e sua banda.

Com repertório de mais de 600 composições (a maioria delas inéditas ou esquecidas, pois dificilmente o músico as escrevia, preferindo guardá-las na memória). “Nunca fiz samba por encomenda, por isso jamais vou compor um samba-enredo. Faço músicas para tirar as coisas de dentro do coração.”

Com sua voz inconfundível, rouca e áspera, gravou seu primeiro disco em 1970. Aos 63 anos, o 3º LP - “Nelson Cavaquinho”, que representava a primeira gravação com Guilherme de Brito – seu parceiro mais constante -, em dueto com o amigo em suas mais importantes composições: “A Flor e o Espinho”, “Se Eu Sorrir”, “Quando Eu Me Chamar Saudade” e “Pranto de Poeta”. Novamente com Guilherme, em 1977, Nelson participava do disco “Quatro Grandes do Samba” (RCA), ao lado ainda de Candeia e Elton Medeiros.

Um ano antes de morrer, Nelson Cavaquinho gravou o disco-tributo “As Flores em Vida”. Aos poucos o menestrel das ruas foi envelhecendo. As rugas fizeram residência em seu rosto. Parou de beber e de fumar. Já não mais varava as noites em claro, mas continuava com o violão. Todos os dias, abraçava-o carinhosamente, com seu estranho hábito de tocá-lo quase na vertical. As composições foram rareando, no entanto, persistiram até o fim. Na madrugada do dia 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, ele morria, vítima de enfisema pulmonar.