O mais tradicional desfile de carnaval de rua de São Paulo | Carnaval 2016 | 31/01/2016

O samba nos anos 40

Aquarela do Brasil, Amélia, Brasileirinho, Zé Carioca, Falsa Baiana, O samba da minha terra. Diversas músicas, personagens e expressões que se eternizaram em nossas memórias como símbolos da cultura brasileira surgiram durante os anos 40. Nesse período a criação musical foi intensa, diversificada e bastante influenciada pelo cenário político nacional e mundial. As músicas, interpretadas por talentosos cantores, vertiam de compositores inspirados e apaixonados. Canções primorosas que retratavam o Brasil, seu povo e suas paixões chegavam a todos os cantos do país pelas ondas curtas do rádio. Assim nossa música cresceu, amadureceu, vislumbrou novos horizontes e cruzou fronteiras, e o samba, ritmo sincopado de compasso binário, outrora perseguido, foi devidamente reconhecido, passando de preterido a preferido, de marginalizado a identidade nacional.
por Gustavo Seraphim



O Samba nos anos 40

Samba-exaltação, samba-canção, samba de breque, samba de dor de cotovelo, samba do trabalhador, marchinhas de carnaval

Carmen Miranda, Herivelto Martins, Vadico, Almirante, Paulo da Portela, Dorival Caymmi, Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Mario Lago, Assis Valente, Manacéia, Jacob do Bandolim, Waldir de Azevedo, Moreira da Silva, Mário Reis, Orlando Silva, Silvio Caldas, Roberto Silva, Wilson Batista


"Isto aqui, ô ô
É um pouquinho de Brasil iá iá
Deste Brasil que canta e é feliz,
Feliz, feliz..."

(Isto aqui, o que é? - Ary Barroso)

Jeito brasileiro de cantar
"Ao mesmo tempo que parecia frágil em sua vida amorosa e pessoal, Carmen estava fazendo uma revolução na música brasileira, tornando-a adulta, urbana, maliciosa, e estimulando os compositores a explorar esses caminhos. Ethel Waters vinha fazendo o mesmo na música americana, e exatamente na mesma época. Com elas, a cantora popular deixava de ser a soprano olímpica, para quem a letra da música era apenas uma pista de corrida tendo os agudos como obstáculos, ou a moçoila ingênua e infantilizada que cantava versos matutos ou piegas. A cantora agora era uma mulher que tomava liberdades com o ritmo, adiantando-se ou atrasando-se em relação a ele - ditando o próprio ritmo -, escandindo sílabas, dando um toque picante às letras. Enfim, tornando-se dona da canção."

Texto completo em http://www2.uol.com.br/entrelivros/noticias/carmen_miranda_o_pequeno_gra...


"O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato"

(Brasil Pandeiro - Assis Valente)

Política da boa vizinhança
"Zé Carioca é o apelido do papagaio José Carioca, criado no começo da década de 40 pelos estúdios Walt Disney em uma turnê pela América Latina, que fazia parte dos esforços dos Estados Unidos para reunir aliados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Historicamente esse esforço na América Latina foi chamado de "Good Neighbor Policy" ou Política da Boa Vizinhança." "(...) O papagaio José Carioca (vulgo Zé Carioca) foi criado para o filme Alô, amigos (Saludo Amigos), de 1942, lançado nos EUA no ano seguinte pela Disney. O filme era dividido em quatro partes e mostrava a América do Sul, na qual o Zé ciceroneava Pato Donald na sua visita ao Brasil: apresentou ao pato ianque a cachaça e o samba."

Texto completo em http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Carioca


A culpa é do samba (Walt Disney)
on line em http://br.youtube.com/watch?v=0Kx7UdRJIYY&feature=related

Zé Carioca apresenta a Bahia a Pato Donald (Walt Disney)
on line em http://br.youtube.com/watch?v=v8VC0AaabjQ&feature=related

Época de ouro do rádio
"Com capacidade para alcançar todo o território nacional, o rádio substituiu com vantagem o teatro de revista no papel de lançador de sucessos da música popular brasileira. Quem ganhou com isso foi o samba e os sambistas. (...) Com o rádio aos poucos se transformando, entrando em esquema comercial e popular, levando para os microfones cantores e cantoras preferidos pelo povo, quem mais teve a ganhar foi o samba. (...) Em programas de estúdios ou auditórios, em pouco tempo, o rádio se tornou o lançador oficial do samba."
(Revista História do Samba - Capítulo 11, pág. 201, Editora Globo)


O Samba e o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda)
"A cruzada antimalandragem, desencadeada pelo DIP de 1940 em diante, objetivou interromper a relação visceral que uniu, historicamente, o samba à malandragem. Essa ofensiva se conectava, aliás, a reações existentes no próprio front da música popular brasileira ao longo dos anos 30. (...) Com a entrada em ação do DIP, de fato apertaram-se os nós da camisa-de-força imposta aos compositores. Estes foram, por assim dizer, sitiados pelas forças conservadoras à frente do Governo Vargas: seja prodigalizando favores, seja por intermédio da repressão e/ou censura, tentou-se, a qualquer custo, atraí-los para o terreno do oficialismo."
(PARANHOS, ADALBERTO - VOZES DISSONANTES SOB UM REGIME DE ORDEM-UNIDA - Música e Trabalho no "Estado Novo" - Revista do NEHAC - Universidade Federal de Uberlândia - Nº 4 - Vol 4 - 2002)

Artigo completo em http://www.martamaia.pro.br/cultura_vozes.asp


"Quem trabalha é que tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar
O bonde São Januário leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar"

(Bonde São Januário - Ataulfo Alves e Wilson Batista)

O sambista trabalhador
"Em 1940, Odete Amaral lançou o samba "Mulher de seu Oscar", também parceria com Wilson Batista, e Cyro Monteiro, o samba "Sim, sou eu", ambos pela Victor.No final do mesmo ano,Cyro Monteiro lançou o samba "O bonde de São Januário" com o qual venceu o concurso do carnaval do ano seguinte. "O bonde de São Januário" é um dos primeiros sambas que adotaram o tema de exaltação ao trabalho e condenação da malandragem sugeridos pelo DIP, que na época preocupava-se com a grande quantidade de sambas fazendo apologia à vadiagem. O samba acabou inspirando uma famosa paródia (que pode ter sido do próprio Wilson Batista, um flamenguista doente) que dizia: "O bonde de São Januário/ leva um português otário/ pra ver o Vasco apanhar...".

Texto completo em http://www.dicionariompb.com.br/detalhe.asp?nome=Ataulfo+Alves&tabela=T_...


"Quem não gosta de samba bom sujeito não é
É ruim da cabeça ou doente do pé
Eu nasci com o samba
No samba me criei"

(Samba da minha terra - Dorival Caymmi)

O cantor dos mares
"Críticos e admiradores concordam que a obra de Dorival Caymmi é atemporal e independente. Pelo conjunto dela, o Dorival compositor não pode ser vinculado a um movimento da música nacional; como cantor, tem um estilo próprio, com uma voz poderosa que o levou para as rádios menos de um ano depois de chegar ao Rio. Ele foi um dos primeiros a levar para o rádio e para os shows repertorios baseados em suas próprias músicas."
(Revista Bravo! Especial 100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira, pág. 17, Editora Abril)



Cyro Monteiro, com sua caixinha de fósforos, canta a Falsa Baiana, música de Geraldo Pereira.




Amélia
"Ai, Amélia! Aquilo sim é que era mulher! Lavava, engomava, cozinhava, apanhava e não reclamava." Foi de tanto ouvir um amigo exaltar a tal de Amélia que o ator e compositor Mário Lago (1911-2002) resolveu transformá-la em samba. (...) De samba desconhecido, Amélia virou uma das favoritas no concurso de melhor canção do Carnaval de 1942. No dia da decisão Mário subiu ao palco e fez um discurso inflamado, proclamando Amélia como " o símbolo da mulher brasileira".
(Revista Bravo! Especial 100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira, pág. 39, Editora Abril)

Para ouvir
Programa Olhar Brasileiro (Radio USP) apresentando história e músicas de Ataulfo Alves.
http://www.radio.usp.br/programa.php?id=37&edicao=070906


"Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um outro qualquer"

(Nervos de aço - Lupcinio Rodrigues)

Eterno amante
"Amores impossíveis, paixões desesperadas, mulheres volúveis, infiéis, tudo isso faz parte do mundo explorado por Lupicínio Rodrigues em sua obra. Ninguém melhor do que ele cantou a dor-de-cotovelo em nossa música popular. O exemplo maior de seu estilo é o samba "Nervos de Aço", uma história de traição amorosa e de protesto contra o conformismo de pessoas traídas."

Texto completo em http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/nervos-de-ao.html

Brasileirinho
"(...) impressiona pela vivacidade: o andamento extremamente rápido anima qualquer virtuose a arriscar uma interpretação. A música de Waldir de Azevedo (1923-1980) levou, pela primeira vez, o cavaquinho ao centro das atenções. Em geral um instrumento acompanhante, o cavaquinho teve toda a sua potencialidade de solista exibida nas mãos e nas composições de Waldir."
(Revista Bravo! Especial 100 Canções Essenciais da Música Popular Brasileira, pág. 108, Editora Abril)

Assista abaixo ao solo de Brasileirinho por Luciana Rabello no show de Toquinho em 1983, na Suiça.





"Paulo da Portela foi quem deu a luz
Ao samba que iluma Oswaldo Cruz"

(Depois de Madureira - Mauro Diniz)

Cidadão Samba
"Aos domingos, todos conheciam os sambas ensaiados durante a semana. Conta-se que Paulo advertia quem se comportava mal e dava bom exemplo usando terno, gravata e chapéu, sendo seguido por alguns companheiros. "Seu" Paulo, como fazia questão de ser chamado, gostava de ver todos com "pés e pescoços ocupados". Paulo da Portela tinha consciência de que a atividade artística que produziam era rica e poderia tornar-se profissional, daí a preocupação em diferenciar a imagem do sambista do malandro vadio perseguido pela polícia. Paulo era conhecido por "professor" e é assim que muitos sambistas, ainda hoje, se referem a ele."
(SILVA, Marília Trindade Barboza da e MACIEL, Lygia dos Santos. Paulo da Portela; traço de união entre duas culturas. Rio de Janeiro, FUNARTE, 1979.
CABRAL, Sérgio. AS Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Lumiar Editora, 1996)

Texto completo em http://www.samba-choro.com.br/artistas/paulodaportela

Sete anos de glória
" (...) Nos anos 40, outro feito histórico: de 1941 a 1947, a Portela conquistou o primeiro lugar. Só dava ela, a única heptacampeã do carnaval carioca. Mas também foi uma década triste para Oswaldo Cruz. Em 1949, o fundador Paulo da Portela morreu brigado com a escola que tanto contribuiu para consolidá-la no panteão do carnaval carioca. Uma estabilidade que, diga-se de passagem, muito se deveu aos grandes sambas assinados pela nata de compositores da azul-e-branca: Monarco, Waldir 59, Candeia e Zé Kéti."

Texto completo em http://carnaval.globo.com/Carnaval2008/0,,CAV23-9771,00.html


"Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, Mangueira, cantar?"

(Sala de Recepção - Cartola)

Em Mangueira se abraça o inimigo como se fosse irmão
"Em 1941, numa história muitas vezes repetida, Paulo da Portela, desgostoso com a escola que fundara, mudou-se para a casa de Cartola, na Mangueira. Queria mudar de escola, mas os mangueirenses convenceram-no do contrário: seu lugar era na Portela, para onde o levaram de volta, em comitiva. Sobre a permanência de Paulo na Mangueira, Cartola fez na época este samba, inédito, e aqui apresentado em diálogo com Creusa. O inimigo, que, na Mangueira, se abraça 'como se fosse irmão', evidentemente é Paulo da Portela"

(Texto do LP lançado pela Discos Marcus Pereira - Escrito por Juarez Barroso)



Biografias

Almirante (1908-1980)
http://www.geocities.com/locbelvedere/Biografia/BiografiaAlmirante.htm

Assis Valente (1911-1958)
http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?nome=Assis+Valente&tabela=T_...

Geraldo Pereira (1918-1955)
http://www.geraldopereira.com.br/

Herivelto Martins (1912-1992)
http://br.geocities.com/biografiaschiado/BiografiaHeriveltoMartins.htm

Jacob do Bandolim (1918-1969)
http://www.jacobdobandolim.com.br/jacob/biografia.php

Lupcinio Rodrigues (1914-1974)
http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/lupicnio-rodrigues_06.html

Manacéia (1921-1995)
http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_A&nome=Manac%E...

Mário Lago (1911-2002)
http://www.dicionariompb.com.br/detalhe.asp?nome=M%E1rio+Lago&tabela=T_F...

Mário Reis (1907-1981)
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/mario-reis.asp

Moreira da Silva
http://www.dicionariompb.com.br/verbete.asp?tabela=T_FORM_A&nome=Moreira...

Orlando Silva (1915-1978)
http://www.mpbnet.com.br/musicos/orlando.silva/

Roberto Silva (1920)
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/roberto-silva.asp

Sílvio Caldas (1908-1998)
http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/slvio-caldas.html

Vadico (1910-1962)
http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/vadico.html

Waldir Azevedo (1923-1980)
http://www.samba-choro.com.br/artistas/waldirazevedo

Wilson Batista (1913-1968)
http://www.samba-choro.com.br/artistas/wilsonbatista



Marchinhas de Carnaval cantadas na época
Aurora - http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/aurora.html
Allah-la-ô - http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/allah-la.html
Nega do cabelo duro - http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/05/nega-do-cabelo-duro.html
Nós os carecas - http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/05/ns-os-carecas.html

Letras

Samba da minha terra (Dorival Caymmi) 1940

Samba da minha terra deixa a gente mole
quando se canta todo mundo bole, quando se canta todo mundo bole
Quem não gosta de samba bom sujeito não é
É ruim da cabeça ou doente do pé
Eu nasci com o samba no samba me criei
e do danado do samba nunca me separei



Acertei no Milhar (Wilson Batista e Geraldo Pereira) 1940
Etelvina (o que é, Morengueira?)
Acertei no milhar!
Ganhei quinhentos contos, não vou mais trabalhar
você dê toda roupa velha aos pobres
e a mobília podemos quebrar
(breque)
"Isso é pra já, vamos quebrar. Pam, pam, bum, etc..."
Etelvina vai ter outra lua-de-mel
você vai ser madame
vai morar num grande hotel
eu vou comprar um nome não sei onde
de Marquês Morengueira de Visconde
um professor de francês mon amour
eu vou mudar seu nome pra Madame Pompadour
Até que enfim agora sou feliz
vou passear a Europa toda até Paris
e nossos filhos, oh, que inferno
eu vou pô-los num colégio interno
me telefone pro Mané do armazém
porque não quero ficar devendo nada a ninguém
e vou comprar um avião azul
para percorrer a América do Sul
mas de repente, derrepenguente
Etelvina me acordou está na hora do batente
mas de repente, derrepenguente
(breque)
- Se acorda, vargulino!
Foi um sonho, minha gente!



Brasil Pandeiro (Assis Valente) 1941
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará.
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar

Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente
Num batuque de matar

Batucada, Batucada, reunir nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressão que não tem par, ó meu Brasil

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar
Ô, ô, sambar, iêiê, sambar...

Queremos sambar, ioiô, queremos sambar, iaiá



Isto aqui, o que é? (Ary Barroso) 1942
Isto aqui, ô ô
É um pouquinho de Brasil iá iá
Deste Brasil que canta e é feliz,
Feliz, feliz,

É também um pouco de uma raça
Que não tem medo de fumaça ai, ai
E não se entrega não

Olha o jeito nas 'cadeira' que ela sabe dar
Olha só o remelexo que ela sabe dar (Repete)

Morena boa, que me faz penar,
Bota a sandália de prata
E vem pro samba sambar



Você já foi à Bahia? (Dorival Caymmi) 1941
Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!

Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas,
Do tempo do Imperador.
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito,
Que nenhuma terra tem!

Lá tem vatapá,
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!
Então vá...


Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves e Mário Lago) 1944

Covarde sei que me podem chamar
Porque não calo no peito essa dor
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor
Eu sei que vão censurar meu proceder
Eu sei, mulher
Que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir



O bonde São Januário (Ataulfo Alves e Wilson Batista)
Quem trabalha
É quem tem razão
Eu digo
E não tenho medo
De errar
Quem trabalha...
O Bon de São Januário
Leva mais um operário
Sou eu
Que vou trabalhar
O Bonde São Januário...
Antigamente
Eu não tinha juízo
Mas hoje
Eu penso melhor
No futuro
Graças a Deus
Sou feliz
Vivo muito bem
A boemia
Não dá camisa
A ninguém
Passe bem!

Não posso viver sem ela (Cartola) 1942

Tive que contar a minha vida
A esta mulher fingida
Que me faz sofrer
Esta dor que tanto me crucía
Roubou toda a alegria
Do meu viver
Pode ser que ela ouvindo os meus ais
Volte ao lar pra viver em paz
Esta malvada bem sabe o mal que me fez
Mas não faz mal eu lhe perdoo outra vez
Meu coração vive reclamando noite e dia
Por isso eu peço que ela volte para a minha companhia



Sala de Recepção (Cartola) 1942

Habitada por gente simples e tão pobre
Que só tem o sol que a todos cobre
Como podes, Mangueira, cantar?
Pois então saiba que não desejamos mais nada
A noite, a lua prateada
Silenciosa, ouve as nossas canções
Tem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho de ser os primeiros campeões
Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora
E as outras escolas até choram
Invejando a tua posição
Minha mangueira da sala de recepção
Aqui se abraça o inimigo
Como se fosse um irmão



Emília (Wilson Batista e Haroldo Lobo) 1942

Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma
E sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília
Não posso mais
Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar...
Ninguém sabe igual a ela preparar o meu café
Não desfazendo das outras, Emília é mulher
Papai do céu é quem sabe a falta que ela me fez
Emília, Emília, Emília
Não posso mais



Rosa Morena (Dorival Caymmi) 1942

Aonde vais morena Rosa
Com essa rosa no cabelo e esse andar de moça prosa
morena, morena Rosa
Rosa morena o samba está esperando
Esperando pra te ver
Deixa de lado esta coisa de dengosa
Anda Rosa vem me ver
Deixa de lado esta pose
Vem pro samba vem sambar
Que o pessoal tá cansado de esperar, O Rosa
Que o pessoal tá cansado de esperar, morena Rosa
Que o pessoal tá cansado de esperar, viu Rosa,
Que o pessoal tá cansado de esperar


Vatapá (Dorival Caymmi) 1942

Quem quiser vatapá, ô
Que procure fazer
Primeiro o fubá
Depois o dendê
Procure uma nêga baiana, ô
Que saiba mexer
Que saiba mexer
Que saiba mexer

Bota castanha de caju
Um bocadinho mais
Pimenta malagueta
Um bocadinho mais
Amendoim, camarão, rala um coco
Na hora de machucar
Sal com gengibre e cebola, iaiá
Na hora de temperar

Não para de mexer, ô
Que é pra não embolar
Panela no fogo
Não deixa queimar
Com qualquer dez mil réis e uma nêga ô
Se faz um vatapá
Se faz um vatapá
Que bom vatapá



Beija-me (Roberto Martins e Mário Rossi) 1942

Beija-me, deixa o teu rosto
Coladinho ao meu
Beija-me, eu dou a vida
Pelo beijo teu
Beija-me, quero sentir o teu perfume
Beija-me com todo o teu amor
Se não eu morro de ciúme.

Ai, ai, ai, que coisa boa
O beijinho do meu bem
Dito assim, parece atoa
O feitiço que ele tem.

Ai, ai, ai, que coisa boa
Que gostinho divinal
Quando eu ponho a minha boca
Nos teus lábios de coral.

Beija-me, beija-me, beija-me...



Lá em Mangueira (Herivelto Martins e Heitor dos Prazeres) 1942

Lá em Mangueira
Aprendi a sapatear
Lá em mangueira
É que o samba tem seu lugar
Foi lá no morro
Um luar e um barracão
Lá eu gostei de alguém
Que me tratou bem
Eu dei meu coração.

No morro a gente
Leva a vida que quer
No morro a gente
Gosta de uma mulher
E quando a gente
Deixa o morro e vai embora
Quase sempre chora,
Chora, chora, chora....



Falsa Baiana (Geraldo Pereira) 1944

Baiana que entra no samba e só fica parada
Não samba, não dança, não bole nem nada
Não sabe deixar a mocidade louca
Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira
Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras

Deixando a moçada com água na boca

A falsa baiana quando entra no samba
Ninguém se incomoda, ninguém bate palma
Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba
Salve a bahia, senhor

Mas a gente gosta quando uma baiana
Samba direitinho, de cima embaixo
Revira os olhinhos dizendo
Eu sou filha de são salvador



Pisei num despacho (Geraldo Pereira) 1944

Desde o dia em que eu passei
Numa esquina pisei num
Despacho
Entro no samba e meu corpo tá duro, vem que eu procuro
A cadência e não acho
Meu samba, meu verso apesar do sucesso
Há sempre um
Porém
Vou a gafieira fico a noite inteira e no fim não dou
Sorte com ninguém

Mas eu vou num canto, vou num pai de santo pedir

Qualquer dia
Que me dê um despacho, um banho de erva e uma guia
Tenho aqui um endereço um senhor que eu conheço me deu
Há 3 dias
O mais velho é batata diz tudo na exata, é uma casa em
Caxias



Sem compromisso (1944) - Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum pai-joão

Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Prá não haver bate-boca dentro do salão

Quando toca um samba
E eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: não, eu agora tenho par

E sai dançando com ele, alegre e feliz
Quando pára o samba
Bate palma e pede bis



Não diga a minha residência (Bide e Armando Marçal) 1945

Pelo amor de Deus
Não diga a ela minha residência
Eu quero até
Que ela ignore a minha existência
Se você é amigo meu
Não diga onde eu moro
Pelo amor de Deus.

Faça o favor, se a encontrar
Meu endereço, não revelar
Ela tem prazer em ver
Os sofrimentos meus
Não diga onde eu moro
Pelo amor de Deus...



Você me abandonou (Alberto Lonato) 1945

Você me abandonou
Ô ô eu não vou chorar
Mas hei de me vingar
Não vou te ferir
Eu não vou te envenenar
O castigo que eu vou te dar é o desprezo
Eu te mato devagar
O desprezo é uma arma perigosa
È pior do que uma seta venenosa
O desprezo para quem sabe sentir
Muitas vezes faz chorar
Outras vezes faz sorrir



Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues)

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser
Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor



Rosa Maria (Aníbal Silva e Eden Silva) 1948

Um dia
Encontrei Rosa Maria
Na beira da praia a soluçar
Eu perguntei o que aconteceu
Rosa Maria me respondeu
O nosso amor morreu
Não sei ainda explicar qual a razão
De Rosa Maria desprezar meu coração
Eu fazia-lhe toda a vontade
Será que ela tem outra amizade?



Crédito das imagens do texto
1. Tela "Boêmios" de Heitor dos Prazeres
2. Capa livro Carmem, Ruy Castro, Ed. Companhia das Letras
3. Iconografia - Revista História do Samba - Cap. 11 - Ed. Globo
5. Propaganda de rádios da marca Philips 1942
6. Bonde de São Januário, na década de 1940, fotografia de Genevieve Naylor
7. Lupcinio Rodrigues
8. Paulo da Portela em baila de carnaval